Orquestra Coreográfica do Selvagem
A Orquestra Coreográfica do Selvagem foi uma experiência interessante de criação comunitária, mediada por bailarinos profissionais. Como quase todas as criações da Ordem do Ó, foi desenhada, ensaiada e estreou na floresta de Monsanto. Os espaços verdes são extremamente importantes para o Pedro Ramos, diretor artístico, bailarino e coreógrafo da Ordem do Ó.
Tal como noutras sonoplastias que fiz para esta companhia, fiz bastante uso de gravações dos ensaios. A voz falada, o ar expirado, grunhidos e gritos foram a matéria-prima que usei, e tive o prazer de gravar pessoalmente a maioria destes sons. Isto permitiu-me desenvolver a música de forma diretamente ligada aos movimentos e frases coreográficas que iam surgindo. Considero, por isso, que o resultado final "casou" perfeitamente com a coreografia.
A participação da comunidade permitiu ao espetáculo contar com um "coro" de pessoas mais alargado do que nas outras criações da Ordem do Ó, e por consequência os sons que gravei ficaram muito mais ricos.
Foi também uma oportunidade de adaptar a minha criação a sensibilidades artísticas mais variadas, já que o espetáculo tinha outro tipo de bailarinos e era dirigido a outros públicos.
Deixo em seguida algumas das músicas mais exemplificativas desta sonoplastia.
Anália
Mais uma vez, em cada bailado acabo por incluir pelo menos uma música com um ritmo assumido e marcado, e um conteúdo musical mais convencional, menos textural. Nesta peça pude explorar algumas gravações captadas em ensaio com os bailarinos, e em especial um ritmo partilhado pela bailarina cujo nome dei à música.
Fauno
Um pouco como noutros bailados para os quais compus a música, tendo também tendência a incluir uma peça assumidamente tonal, com estrutura harmónica e melódica mais convencionais, mesmo que não seja tão rítmica. Neste caso, tentei o meu melhor para emular um estilo "debussiano" ou até "raveliano", de modo a evocar o ambiente onírico da floresta e da personagem que iria solar neste momento, o Fauno. Foi também a oportunidade de "tirar o pó" a uma flauta japonesa que tinha em casa e que nunca tinha usado profissionalmente.
Louva-Deus
Como noutras composições para a Ordem do Ó, o uso da voz humana de modo tratado e distorcido é algo que aprecio, e que tento manter como ferramenta base de criação musical. Neste caso, com acesso a um grupo alargado de participantes, as gravações de exercícios vocais permitiram criar as texturas presentes nesta música — texturas que, de outra forma (sozinho em casa, ou através de instrumentos eletrónicos), nunca teriam tanta riqueza na sua imperfeição e imprevisibilidade.